Existe jeito certo de amar? O que eu devo saber ao entrar em um relacionamento? O que é errado? Quem eu posso ou não amar? Quantas perguntas distintas surgem quando pensamos em amor, em uma relação romântica, quantos conflitos e como lidar com eles?
Não estou aqui para dizer o que é certo ou errado, até porque não acredito nisso. As dualidades existentes no mundo atual são fruto de uma construção histórica que vem muito antes de nós, tem bases rígidas e estruturadas em conceitos e ideias que hoje já não se aplicam, não fazem sentido para nós, porém ainda seguimos por apego, pelo medo do novo, daquilo que não é conhecido – sensação de perigo e de instabilidade.
Mas para além de certo ou errado existem diversos caminhos, diferentes formas de experimentar a vida, as relações, e ao invés de ditar regras aos outros poderíamos estar vivendo com mais presença, nos permitindo explorar, conhecer e entender o que faz sentido para nós. Porque nos (pre)ocupamos tanto com o outro? Com a sexualidade ou amor do outro? Temos tanto medo de olhar para nós mesmas que nos ocupamos de julgar o outro ou querer impor uma verdade que muitas vezes nem nós acreditamos por completo. E atenção, quando julgamos, quando falamos do outro falamos mais sobre nós do que sobre esse outro!
Ainda hoje nós aprendemos a nos relacionar pela lente da monogamia, nossos referenciais são ainda escassos em outros formatos de relações, mas existe um mundo de possibilidades. Te convido a refletir sobre isso, a estar aberta para pensar sobre as diferentes formas de relacionamentos possíveis de se vivenciar. Calma, eu sei que isso abala as estruturas, nos causa medo e instabilidade, mas te garanto que a depender do que você consome de conteúdo, vindo de alguém acolhedor, vindo do amor tudo é possível de ser (re)visto e (re)significado!
Vou me ater a não me estender tanto correndo o risco de haver muita falta de detalhes nesse assunto, mas quero aos poucos nesse espaço ir complementando essas ideias para acrescentar no debate. Primeiro começar dizendo que não-monogamia não é sair ficando com todo mundo, transando sem limites e tendo relações abertas com qualquer pessoa, infelizmente o termo vem sendo vulgarizado e compreendido equivocadamente.
Não-monogamia é uma forma de enxergar a vida, eu diria até uma filosofia de vida, que compreende a relação com o outro para além de uma propriedade, rompendo com noções de posse, ciúmes, apego, medo da perda, entendendo que não precisamos depositar em uma só pessoa todas as nossas necessidades como se somente ela fosse capaz de supri-las, porque somos seres relacionais em comunidade, precisamos de outros e é aqui que entram as relações físicas amorosas com outros – mas não é uma regra para todos. E quebra-se a noção de autoaperfeiçoamento, como se uma relação precisasse o tempo todo nos levar para cima, como se a relação com o outro fosse uma empresa que precisa estar o tempo todo em desenvolvimento, sem sofrimento.
Conseguem entender como existe muito mais para além de sexo? É muito mais profundo, nos faz refletir sobre o formato de sistema social em que estamos inseridos – um capitalismo/neoliberalismo que nos desconecta de pessoas, nos individualiza a tal ponto que nos faz perdermos nossa essência, nos fragmenta (não vemos mais os processos completamente, por exemplo, ao comprar uma carne no mercado não vemos o animal, não enxergamos todo o trabalho de muitas pessoas envolvidas por trás, DEPENDEMOS delas). Só saímos da animalidade porque nos juntamos em grupos, sobrevivemos e chegamos até aqui vindo de um coletivismo. Nós temos registros históricos que viemos da não-monogamia, as pessoas transavam sem posse, sem propriedade antes do mundo da linguagem, quando ainda não tínhamos o pensamento nesse formato de hoje desenvolvido. Eu amo falar sobre isso porque nos relembra que somos tão pequenos olhando o todo, quanta coisa existiu antes de nós! Tomemos cuidado para não nos acharmos superiores a tudo e a todos, pois nossa ancestralidade é muito sábia. Não conhecemos o todo e lembremos: o que vivemos hoje nem sempre foi assim.
A monogamia foi instaurada como uma necessidade da época de manutenção da espécie, de procriação até o acúmulo de bens. No passado somente as mães sabiam quem eram seus filhos, os pais não, e o cuidado era coletivo, as crianças eram educadas por toda a tribo. A necessidade desses pais saberem quem são seus filhos vem com maior força quando começam a ter um grande acúmulo de bens materiais, sendo necessário deixar eles para alguém para que meu trabalho não tenha sido em vão – passar a cada geração, onde então vamos criando o conceito de família. Percebem como tudo é construído? Não é inato, família nem sempre existiu nesse formato que temos hoje, então mais uma vez cuidado com a rigidez, com aquilo que você aprende agora, pois somos seres de história e evolução!!!
Enfim, para quem tiver interesse, Marx e Engels descrevem lindamente e com riqueza de detalhes no livro “A origem da família, da propriedade privada e do estado” esse nosso processo de nos tornarmos família, do desenvolvimento da monogamia e todas as problemáticas desse sistema atual. Isso significa que vocês precisam ser não-monogâmicos? Óbvio que não, podemos ser o que quisermos, mas que sejamos com consciência, mesmo vivendo a monogamia podemos ter maior cuidado com o outro, conosco, mais compaixão e não reproduzir tantas falas adoecedoras e heteronormativas (aliás, acrescente nesse processo evolutivo o quanto a heterossexualidade também foi construída para sobrevivência, mas não é uma verdade absoluta, mas isso é papo para outro texto).
Que estejamos mais abertos a amar, a respeitar aquilo que não entendemos, a observar a riqueza do diverso, pois existe um mundo antes de nós, muito vasto e complexo. O amor é ser, é sentir, é viver! E o debate com fricção, os conflitos, fazem parte desse viver, mas com respeito ao outro que também existe nas suas particularidades, podemos conviver e coexistir.





